quarta-feira, 3 de maio de 2017

Tenho tantas saudades tuas, Mafalda


Mafalda,

Faz hoje 45 anos que nasceste.
Lembro-me bem da soberba alegria que senti ao ser pai.
Fizeste-me pai pela primeira vez.
Habituado, desde sempre, a chamar pai, tinha, desde esse momento, alguém que me iria chamar pai a mim.
Nos dias seguintes não me cansei de dizer a toda a gente que já era pai, que tinha uma filha linda.
Todos tinham que saber que eu era PAI.
E um PAI todo baboso com apenas 19 anos.

Os anos que se seguiram foram difíceis.
Para ti e para todos nós que sempre te amámos.
Mas, com muita luta, determinação e muito amor, conseguimos ultrapassar quase todos os problemas e tornaste-te numa menina cada vez mais forte.
Ainda hoje todos te recordam com uma ternura que me comove.

A vida é muito cruel.
Mas temos que aceitá-la como ela é.
E muito cedo, demasiado cedo, deixaste-nos.
Com apenas 23 aninhos, deixaste-nos.
Mas estarás sempre entre nós, no nosso coração.

Guardo, religiosamente, exposto no meu escritório, o último postal do Dia do Pai que me deste.
Foi no dia 19 de Março de 1995.
Dois meses antes de nos deixares.

Nessa altura, por razões que a própria razão desconhece, andava eu meio confuso e sem rumo.
E tu sabias e reparaste nisso.
Nessa altura não era o pai que tu conheceras.
Escolheste um postal que retratava um pai sentado no chão, longe da vida, longe de tudo, a tocar saxofone, com ar desleixado, e com o filho dormindo junto a si.
Nas costas do postal, escreveste uma mensagem que, desde esse dia, me tem inspirado:

"19/3/95 Hoje é Dia do Pai.
Quero-te dizer que te amo muito que te adoro e que desejo que dias melhores venham para a tua vida, desta tua filha que muito te adora.
Mafalda
".


Cada vez que leio esta tua mensagem, choro... Estou a chorar.

E agora, filha, quero dizer-te que os teus desejos foram realizados.
Meio perdido.
Alcoolizado.
Sem força para lutar.
Sem emprego.
Sem projectos.
Sem perspectivas.
Sem ânimo.
Era o fim.

NÃO !!!
Recusei-me a aceitar.

Acordei.
E consegui.

Voltei a ser eu, o pai que tu conheceste e adoraste.
Inspirado na tua mensagem consegui que melhores dias viessem para a minha vida.
Tudo me corre bem.
Saúde quanto baste.
Dinheiro para as necessidades e alguns desvarios.
Amor e amizade quanto se possa desejar.
Agora até o Benfica, de vez em quando, joga bem e ganha.
Ganhei o passado.
Estou, claramente, a ganhar o presente.
Tenho esperança de ganhar o futuro.
E vou ganhá-lo...
Obrigado, filha.

A mana Paula, o teu cunhado Fernando e o teu sobrinho Diogo estão bem.
São felizes.
Pelo que sei, a tua mãe também.

Agora tens outra mana, a Eunice.
Aaaahhh como eu gostava que a tivesses conhecido.
Tem dezoito anos e é, pelo menos para mim, a melhor saxofonista do Concelho de Loures.
Confesso que, muitas vezes, vou dar comigo a olhar para ela como se de ti se tratasse.
É uma ternura de menina.
Como tu eras.

Tens, também, mais duas manas, não de sangue mas de coração, a Rita e a Soraia.
A Paula, a mãe delas, casou comigo.
Devo a ela muito do que tenho conseguido.
Tem sido uma companheira exemplar.

Um dia irei ter contigo.
Contar-te-ei, então, tudo.
Ficarás feliz.
Por enquanto, por cá vou ficando porque ainda tenho muito para fazer.

Sempre contigo no pensamento.
Sempre contigo no coração.

Tu sabias que eu ia conseguir.
Sempre confiaste em mim.
E eu quero continuar a cumprir os desejos que cá me deixaste naquele Dia do Pai
.

Que Deus te dê a dobro do que deixaste de ter cá na Terra.
Confio que estarás bem entregue.
Tu mereces.

Tenho muitas saudades tuas, Mafalda.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Hoje deu-me para a nostalgia

Hoje deu-me para a nostalgia.
Como os anos passam.
Recordo, com saudade, todos estes anos que vivi intensamente nesta minha tão querida e maravilhosa Fanhões.

Como Director da A.H.B.V.Fanhões.
Ainda jovem, acabado de casar, numa Assembleia Geral em que estava difícil arranjar Direcção, era sempre assim, o meu tio Luciano convenceu-me a aceitar o cargo de Secretário com o Presidente Manta, o velho Vieira, o Zé Cequilho, entre outros.
Foi uma experiência que frutificou e me levou a estar integrado na vida colectiva de Fanhões durante mais de 20 anos.
Foi o tempo dos bailaricos no Salão com as tão carateristicas modas do chocolate.
A música parava, eu e o Ze Manel Tomaz aproximávamo-nos dos pares e o cavalheiro tinha de comprar um chocolate para a dama.
Uma forma de conseguir receitas.
Foi o tempo do teatro com os saudosos Alvaro Nobre, Casimiro Gomes, Graciosa, Camilo Flores e muitos outros.
Foi o tempo das grandiosas Festas Anuais e do bufete-bar sob administração directa.
De um Corpo de Bombeiros totalmente voluntário e gratuito.
Foi o tempo da grande afirmação da Banda de Música e da Orquestra ligeira que abrilhantava gratuitamente os bailaricos.
Quem não se lembra do sempre afinado clarinete do Razão e daquele instrumento encaracolado do Bate-Folha ?

E no S.L.Fanhões.
Era preciso dinheiro.
Não havia subsídios.
Comecei a colaborar com a Direcção, integrado naquilo a que chamámos Conselho Técnico que tinha como função arranjar dinheiro.
Seguiram-se mais 15 anos como Director.
Fui Vogal, Secretário-Geral e Presidente.
Era o Luis e o Vitor Flores, o Joaquim da Laura, o Henrique Correia, o Ze Manel Oliveira, o Manuel Morganho, entre outros.
Fizeram-se cartões anuais de lotaria.
Foi o tempo dos inesquecíveis Toneios de Futebol 5.
Organizaram-se Rallies Papers.
E as Festas Anuais.
Abrimos o Café-Sede do Clube que era assegurado graciosamente pelos elementos directivos.
E desportivamente chegámos à impensável 2ª Divisão Nacional.
As instalações desportivas sofreram uma verdadeira revolução.
Fomos, a certa altura, o Clube mais representativo do Concelho de Loures.

A certa altura fui cabeça de lista do PS à Assembleia de Freguesia.
Perdi por uns escassos tres votos, salvo erro, para o meu saudoso e grande amigo, Luis Castelo que representava a CDU.
Nunca fui caçador.
Mas, consciente da enorme difusão da caça na população, prometi criar um Clube de Caçadores.
Perdi as eleições, mas como Presidente da Assembleia de Freguesia, juntei um grupo de caçadores entusiasmados com a ideia.
Era o Carlos "Porto", o Manel da Rosa, o Silvino, o Raul Mateus e outros.
Fomos à Venatória.
Organizámos sessões de esclarecimento com a Venatoria no Salão dos Bombeiros.
Construiu-se a Sede-Social do Clube no sitio onde ainda é hoje.
Aprovaram-se os estatutos.
E tudo começou.
E eu não era caçador.
Mas estive presente e actuante.

Tempos inesquecíveis, em que tudo se fazia por amor à camisola.
Por amor à terra.
Por amor às colectividades.

É com muita saudade que recordo estes tempos.
Tempos de intensa e saudável convivência.
Quando tudo, com quase nada, era possível fazer.
Porque queríamos, e conseguimos, fazer.
Que saudades...

domingo, 18 de novembro de 2012

Se estiver vivo... vou conseguir.

Domingo frio mas soalheiro.
Um curta e muito simples frase:
"1 ANO".
Sem mais.
Apenas isso:
"1 ANO".
Poderá não querer dizer nada.
Poderá querer dizer muito.
Poderá querer dizer tudo.

1 ano, este ano.
Um milhão de portugueses não têm emprego.
Os que, milagrosamente, mantêm o emprego viram os seus rendimentos brutalmente reduzidos.
Muitos, milhares, por insolvência, tiveram de devolver as casas aos bancos.
Muitos, milhares, antes classe média, vivem abaixo do limiar da pobreza.
A pobreza virou miséria.
1 ano triste e dramático para muitíssimos portugueses.

E para mim ?
E para nós ?
Claro que tivemos que nos ajustar.
Claro que tivemos de cortar no que não era fundamental.
Deixámos de frequentar hoteis e restaurantes acima da média.
O ar condicionado não pode ligar-se a toda a hora.
A roupa só se pode lavar no horário mais barato.
As luzes não podem estar acesas se não fôr necessário.
Etc...
Reduzi substancialmente as despesas.
Mas, ao contrário do governo, procurei novas formas de rendimento.
Procurei crescer ao mesmo tempo que reduzi despesas.
Mas despesas desnecessárias.

Consegui.
Pelo menos este ano consegui.

Orçamento equilibrado.
Vida mediana, sem luxos.
Mas vida.

E o próximo ?
Como vai ser o próximo ano ?
Se estiver vivo.
Se estiver na posse de, pelo menos, algumas capacidades, nomeadamente, intelectuais.
Mesmo que certas capacidades desapareçam pelo avançar da idade.
Vou conseguir.
A não ser que seja posto de lado por velhice e incapacidades inerentes.
Mas, nessa altura, saberei encontrar solução...

Que eu esteja cá.
Ou melhor dito, se me deixarem estar cá.
Vou conseguir o possível e suficiente.
Mas, impossíveis, não esperem de mim.
Farei o que puder fazer.
O que não puder... paciência.

JB





sexta-feira, 4 de maio de 2012

Contra a politica do trabalhador/pagador

Almoço, semanalmente, com um grande amigo meu.
Falamos de tudo e de nada.
Desta vez, de entre muitos assuntos, falámos de crise, falámos de economia.
É incontornável nos dias de hoje.
Toda a gente fala disso.
Todos têm a sua opinião e todos têm as suas próprias soluções milagrosas para esta dramática situação em que nos encontramos.
Contudo, invariavelmente, a politica que todos parecem não rejeitar, ou, pelo menos, parecem aceitá-la resignadamente, é a da inevitabilidade de se terem que aumentar os impostos, e neste particular, sobretudo, os impostos sobre o rendimento das pessoas e das famílas, porque o Estado precisa.
Mas, o que verificamos é que quanto mais se aumentam os impostos menos receita entra nos cofres do Estado como desmonstram, claramente, os ultimos numeros oficiais.
Porque há mais falências.
Porque há mais desemprego.
Porque, desta forma, há menos gente a contribuir.
E, os que continuam a contribuir, os que ainda continuam a ter rendimentos, têm visto o seu pecúleo reduzir-se à custa da sobrecarga de impostos que recaiem sobre as suas actividades próprias ou por conta de outrem.
Com a agravante de que quem muito tem, mesmo que se corte, continua a ter muito.
Mas, para quem tem pouco, mesmo que se lhe retire menos, fica com quase nada.
É uma politica fiscal ineficaz e injusta.

Numa altura em que muito se tem falado das politicas do utilizador/pagador, nomeadamente, a propósito das SCUT's, parece que em relação aos impostos, assistimos à politica do trabalhador/pagador.
É do tipo, queres trabalhar ? Então está lixado, tens de pagar.
Então, porque não falarmos em politicas do consumidor/pagador.
Isto é, paga quem consome, e paga mais quem mais consome.
E, assim, passaria a ser, queres consumir ? Então paga.

Portanto, a ideia que discutimos, passava por isto.
Destaxar, se este termo existe, o rendimento e sobretaxar o consumo.
Cada um decidiria consumir mais, pagando mais, ou consumir menos, poupando mais.
Ficou a ideia.
Curiosa.
Merece reflexão.
JB

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Eu também não paguei quando e como eles queriam


Eis senão quando, em certa altura da minha vida, vi-me sem dinheiro.
Sem emprego, sem rendimento.
Tinha uma dívida ao banco, da compra de uma carrinha, que andava a pagar.
Mas, agora, subitamente, não tinha dinheiro.
Sobravam-me alguns trocos que mal davam para sobreviver num curto espaço de tempo.
E a dívida ao banco ?
Como se pagam dívidas sem dinheiro ?
Que fazer ?

Tenho de ganhar dinheiro, pensei.
Só ganhando dinheiro conseguiria sobreviver e pagar a dívida.
Mas como ?
Era, e sou, informático.
Mas, nessa altura, já com 44 anos de idade como seria possível arranjar emprego nesta área tão exigente ?
Não era possível.
E não foi possível a curto prazo.

Mas, tinha que ganhar dinheiro, JÁ.
Para sobreviver.
Para pagar a dívida.

Com os trocos que me restavam fui comprar bolos e tentar vendê-los nos cafés das redondezas.
E lá fui vendendo, penosamente.
E a dívida ?
Fui ao banco.

Fazendo umas contas verifiquei que poderia pagar uma prestação mais suave, sobreviver e, ao mesmo tempo que, desta forma, poderia continuar a comprar bolos e vendê-los para gerar rendimento.
Se tivesse de pagar a prestação acordada inicialmente, inviabilizaria todo o processo.
Propus uma dilatação do prazo de pagamento.
A prestação seria suavizada.
O banco recebia com mais juros.
Eu daria continuidade ao meu projecto.
Todos ficaríamos a ganhar.

Mas não.
O banco não aceitou.
Tinha que pagar.
Mas não tenho dinheiro, disse eu.
Mas não.
Tem de pagar.
NÃO PAGO.
E não paguei.

A partir daí meti mãos à obra.
Como o banco recusou receber o possível.
E impossíveis não são a minha especialidade.
Fiquei com maior capacidade de fazer crescer o meu negócio de ocasião.

E ele foi crescendo, crescendo.
O banco ia, periódicamente, escrevendo cartas a que eu não respondia.
E o negócio a crescer.
O banco informou-me que iria enviar o processo para contencioso.
E o negócio a crescer.
O contencioso, passados meses, ameaçou-me que iria enviar o processo para tribunal.
E o negócio a crescer.
E o tempo passava, e passava.
Entretanto eu ia sempre respondendo a anúncios de emprego na minha área profissional.
E finalmente consegui o tão desejado emprego.
O tribunal, depois de mais uns tantos meses, comunicou-me que tinha dado entrada o processo de dívida.
Pois sim, pensei eu.
Agora, já com negócios rentáveis.
Agora, com um emprego bem remunerado.
Agora, cá em casa, já não faltava nada.
Agora, cá em casa, até já sobrava.
Agora, sim, já estava em condições de poder pagar.
E PAGUEI.

Vem isto a propósito de realçar que cabe aos credores ajudarem a criar condições aos devedores para que estes possam pagar.
Caso contrário não recebem.
Quem não tem dinheiro não pode pagar.
Ponto.

Eu paguei porque fui ensinado a cumprir os meus compromissos.
Eu paguei porque já não punha em causa a minha sobrevivência e a dos meus.
Paguei mais mas já não me fazia falta.
E reconstrui a minha vida.
Foi das melhores decisões da minha vida.
Ainda hoje estou agradecido ao banco por não ter aceite a minha proposta de pagamentos mais suaves.
Teria sido mais difícil.
Curiosamente.

Um contrato de empréstimo é um contrato de risco.
Risco para o credor porque pode não receber.
Risco para o devedor porque, por razões muitas vezes alheias, pode deixar de ter condições para pagar.
Cabe aos dois, credor e devedor, agindo de boa-fé, criar condições para que o contrato se cumpra.
Será que os credores do País estão a fazer isso ?
Ou estão a agir de má-fé e prepotentemente ?

Pagar a dívida, SIM.
Morrer à fome para a pagar, NÃO.

Eu também não paguei quando e como eles queriam.

domingo, 13 de novembro de 2011

E se os PIIGS não pagassem ?


Façamos um "ó supônhamos".
Os PIIGS (Portugal, Irlanda,Itália,Grécia e Espanha) decidem não pagar as dívidas, pelo menos, até conseguirem ajustar as suas contas e crescerem.
Como seria ?

Temos andado nesta total indefinição para encontrar uma maneira da Grécia não cair.
Porquê ?
A Grécia só representa 2% do PIB europeu !!!
Para que a Grécia não caísse (já) engendrou-se um tal "haircut", perdão de 50% da dívida.
Os grandes bancos europeus e dos EUA foram "voluntáriamente" obrigados a aceitar perdas que determinaram avultados prejuizos nos seus balanços.
Calculem se fossem os 100%.
Por outro lado, com esta maquilhação de perdão de dívida tenta-se evitar que se considere este real incumprimento grego como se de um evento de crédito se tratasse.
Se fosse considerado um evento de crédito haveria lugar ao despoletar do recurso aos CDS's (Credits Default Swapp).
E aí a coisa piava mais fininho.
Estão em causa as grandes financeiras que comercializam estes produtos.
Estamos, por enquanto, a falar, apenas e só, da Grécia que vale uns míseros 2%.
E o medo já é enorme.
Para a Grécia, pois claro.
Mas, se fosse só para a Grécia, já ela tinha ido à vida e os gregos que se lixassem.
Mas não.
É o perigo de contágio.
Agora calculem, como hipótese académica, se fossem todos os PIIGS a declararem incumprimento...
Eu sei que seria muito mau para os PIIGS.
Mas deixo a pergunta:
E para as potências dominantes?
Estarão elas preparadas para um cenário destes ?
Sei que não.
Vê-se que não.
Não duvido que seria a única maneira de acordar o mundo, estes políticos fantoches, para a eminência da derrocada planetária que, cada vez mais, se aproxima.
E, não se pense que é com a substituição administrativa de políticos eleitos democraticamente por tecnocratas escolhidos a dedo que a situação se vai resolver.
Os mercados forçam os países a suportar juros insuportáveis com a ameaça da insolvência.
Está na altura de os países forçarem os mercados com a ameaça de não lhes pagarem.
Apenas, e só apenas, como execício académico, estava curioso para ver quem cederia e se não se encontrariam soluções rápidas.
Obviamente que prefiro que esta corja de polícos consiga receber inspiração divina para evitar o desastre eminente.
Se ainda conseguirem ir a tempo...

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A força do equilibrio


Ora bem, caros amigos,
Reconheço, em muitos de vós, cidadãos interessados e preocupados.
Eu também sou.
Mas divergimos, muitas vezez na forma, mas, em muitas outras, no próprio conteúdo.
Alguns dos caros amigos parte de forma exclusiva e sistemática do pressuposto de que tudo o que de mau tem acontecido, é culpa de Sócrates.

Não vou chegar ao ridículo de pensar que acham que Sócrates deixou cair o Leman Brothers e que a partir daí, principalmente, embora a crise tenha começado com o "suprime", todos os países do Mundo assistiram ao pior tsunami financeiro de que há recordação viva.

Tenho a certeza que não acharão que por via das ramificações do sistema financeiro globalizado, a economia mundial entrou em recessão, por culpa do Sócrates.

Sei que, concordarão comigo, um pouco por todo o mundo, nomeadamente, na Europa, se começaram a desenvolver politicas anti-crise que passou pelo apoio ao sistema financeiro, às empresas e às famílias.
Todos os Estados enveredaram por este caminho e todos eles viram os seus déficits e dividas soberanas cavalgarem sem freio nos dentes.
Esta foi a política geral.
Por cá também.
Hoje temos países com déficits e dividas bem superiores a nós.

Tenho a certeza que não pensam que foi o Sócrates que originou a crise Grega e Irlandesa.
Sei que não lhes passa pela cabeça achar que foi o Sócrates que fez os juros subirem em espiral e os rattings descerem a pique em países como a Espanha, Belgica, Itália e mesmo a França.
Claro que não teve nada a ver com a insolvência da Islândia.

E no meio de tudo isto à nossa volta ainda acham que Sócrates podia fazer melhor num país que NUNCA conseguiu ter uma economia robusta como outros ?
Num país onde todos se julgam credores de todos os direitos e nenhuns deveres ?
Num país onde todos acham que o problema está nos outros mas nunca em si próprios ?
Num país que se reclama de "à rasca" porque se sente incapaz de se desenrascar e prefere ficar à espera que venha alguém, o Estado, os familiares ou os amigos desenrascá-los ?

Não.
Não é o Sócrates o culpado.
Eu sei que os meus amigos são sensatos.
Eu sei que, lá no fundo, reconhecem que não é Sócrates.
Foi a crise internacional e fomos nós todos.
Tenho a certeza que com qualquer outro, mais inseguro, mais confuso, menos determinado e menos experiente, Portugal teria sucumbido.

Exigia-se responsabilidade e sentido patriotico a todos os partidos.
Mas, o PSD fez contas, olhou para as sondagens, com uma vantagem confortavel de mais de 14%, achou que era esse o momento, a oportunidade, de ir ao "pote".
Deitou abaixo o Governo e criou uma crise politica com eleições desnecessárias.
O povo dirá que cometeram um erro de cálculo...

O dever de todos os partidos é estarem disponíveis para encontrarem áreas de consenso, de diálogo, de entendimento que possam servir o país.
O PS apresenta-se como uma força segura de si, responsável, uma força moderada.
Vêem-se partidos, com uma linguagem de agressividade total para atacarem o PS.
Isso não serve o nosso país, os portugueses e não serve a nossa democracia.
O povo saberá responder-lhes...

Em 5 de Junho, a escolha é muito clara:
Entre um governo liderado pelo PS para dar coesão em tempos difíceis, e um liderado pelo PSD que encontra todas as soluções na ponta da tesoura: cortar, cortar cortar.
Podem melhorar o défice, (no passado nunca o fizeram), mas quem corta cegamente deixa para trás as pessoas.
Em tempos difíceis, a coesão social é fundamental para vencer os desafios.

À esquerda do PS há preocupações sociais mas não há propostas realistas.
À direita há propostas ultra-liberais em que não há preocupações sociais.
A força de equilibrio é o PS.
O voto útil, para os tempos exigentes que temos de enfrentar, é seguramente o voto no PS.
Essa é a razão para que nesta altura em que, por todo o lado, os partidos do poder que vão a eleições são esmagados, por cá, continua o empate técnico.

Eu voto no equilibrio.
Voto PS.

domingo, 8 de maio de 2011

O que está em causa


Como foi possível terem feito isto ao País ?!
Muitas vezes me pergunto isso.
Sem pensarem duas vezes.
Porque, era óbvio.
Era óbvio que a nossa posição ficaria mais enfraquecida.

A 11 de Março o Governo apresentou aos portugueses e às instituições europeias o seu pacote de estabilidade e crescimento, o chamado PEC IV, que evitava a necessidade da ajuda externa e que obteve total apoio da Comissão Europeia e do BCE.

O Presidente da CE, Durão Barroso, afirmou a propósito:
"Achamos que são medidas muito importantes na opinião do BCE e da Comissão Europeia e saudamos a adopção dessas medidas".

Com a aprovação do PEC, Portugal não tinha necessidade de recorrer a um plano de ajuda externa que envolveria medidas mais exigentes para todos os portugueses.
Ainda mais quando estávamos no bom caminho.
A boa execução orçamental nos primeiros meses de 2011 com um superavit, no primeiro trimestre, no valor de 432 Milhões de Euros e uma redução da despesa de 3,7%.
Era uma prova do reforço da confiança no cumprimento dos nossos objectivos
.
Mas, em Portugal, apesar de o Governo se mostrar disponível para discutir e negociar, todos os partidos decidiram chumbar na A.R., o PEC IV.
Fizeram-no numa coligação negativa, direita e esquerda, juntas sem apresentar qualquer alternativa, recusando a negociação, o compromisso e o diálogo político e pondo em causa o esforço de todos os portugueses.

No Conselho Europeu, de 25 de Março, Angela Merkel, foi perentória:
"O Programa de reformas português apresentado ao Eurogrupo para os anos de 2011, 2012 e 2013, foi aprovado pela Comissão Europeia e pelo Banco Central Europeu e tem também o nosso apoio, quero voltar a dizê-lo.
Foi o Plano apresentado pelo Primeiro Ministro, José Sócrates".

Sarkozy, nesse Conselho, também adiantou:
"Já vos disse o que penso - o Sr. Sócrates fez o seu trabalho, penso que o fez de uma forma corajosa e notável".

O próprio Obama, referiu-se à nossa situação:
"Portugal está a resolver desafios, criados por alguns mercados financeiros, e creio que é importante registar que o Primeiro Ministro se comprometeu com um pacote de medidas económicas muito vigorosas.
E queremos dizer que apreciamos muito o trabalho que está a fazer".

Mas, mesmo assim, com a clara aprovação internacional, chumbaram o PEC.

Sócrates, até ao último minuto manteve total disponibilidade para dialogar com todos e para negociar os ajustamentos que fossem necessários para a verificação de um consenso que salvaguardasse o interesse nacional.
Ao longo desses dias fez inúmeros apelos à responsabilidade.
E pediu a todos que pensassem duas vezes no que iam fazer.
Lamentável que tenha sido o único a fazer esse apelo.
E lamentável, ainda mais, que nenhuma outra força política tenha respondido a esse apelo.
Esta crise política, naquele momento, tinha que ter consequência gravíssimas sobre a confiança que Portugal precisava de ter junto das instituições e junto dos mercados financeiros.
E, por isso, os que a provocaram, sem qualquer fundamento sério e sem alternativas, são, a partir desse momento, responsáveis pelas suas consequências".

Portugal foi assim arrastado para uma crise política totalmente evitável.
As graves consequências desta crise fizeram-se logo sentir.
O Ratting da República baixou abruptamente.
As taxas de juro dispararam em apenas um mês.
Os Bancos portugueses e importantes Empresas nacionais viram o seu Ratting baixar para níveis perigosos.
Toda esta situação tornou-se uma ameaça real.
A rejeição do PEC IV e a abertura de uma crise política vieram fragilizar o País e tornaram inevitável o pedido de ajuda externa.
A rejeição do PEC IV que foi, afinal, a base com que Portugal partiu para a negociação.

A base das negociações foi o PEC.
O PEC apresentado pelo Governo.
E que foi apoiado em Bruxelas
.
Mas Sócrates garantiu ao País:
Da nossa parte, não haverá nenhum jogo do empurra.
Nós só queremos que isto corra bem para Portugal.
Porque se trata do interesse nacional.
Os portugueses podem estar seguros e confiantes.
Não encontrarão o PS escondido atrás dos arbustos.
Não.
Não encontrarão o PS a assobiar para o lado.
Não.
Encontrarão o PS, também aqui, também agora, sem olhar a outros interesses que não sejam a defesa do interesse nacional.
Encontrarão o PS e o Governo, o Governo do PS, sem hesitações, sem subterfugios, a defender os interesses de Portugal nas duras e difíceis negociações a que a irresponsabilidade política da Oposição nos conduziu.

O que está em causa é defender Portugal.
É manter o rumo e o trabalho destes 6 anos com resultados concretos.

Na saúde, foram criados 283 Unidades de Saúde Familiar abrangendo mais de 3,5 milhões de utentes.
Foram criadas 84 novas unidades de cuidados na comunidade.
Médicos de família para mais de 450 mil utentes que beneficiaram 900 mil pessoas, grávidas, idosos e jovens, através do programa de Saúde Oral.
Foram criados 6 novos centros hospitalares e estão a ser construidos 12 novos hospitais até 2013.

Na proteção social, foram criadas 411 novas creches para mais de 18 mil crianças e 841 novos equipamentos sociais, mais de 50 mil lugares em Lares de idosos, centros de dia e serviços de apoio domiciliário.
Mais de 265 mil idosos recebem o Complemento Solidário para Idosos.
Foi diminuido o risco de pobreza de 19,4% em 2005 para 17,9% em 2009.
E entre os idosos, reduziu-se de 27,&% em 2005 para 20,1% em 2009.

Na educação, estão-se a construir 460 novos centros escolares e a modernizar mais de 400 escolas secundárias.
Todas as crianças com 5 anos frequentam o pré-escolar e com 3 e 4 anos são quase 75%.
Temos a escola a tempo inteiro, Inglês para todos do Ensino Básico.
500 mil alunos benificiam do Apoio Social Escolar.
Foram distribuidos mais de 1 milhão e 700 mil computadores.
Todas as escolas públicas têm acesso à Internet de Banda Larga.
Mais de 700 mil portugueses voltaram a estudar através das Novas Oportunidades.

No apoio aos jovens foram criados diversos programas de estágios para jovens como InovArt, InovMundus, InovJovem, InovContacto, InovSocial junto de algumas das principais instituições e empresas internacionais.
Aumentaram-se para 50 mil os estágios profissionais.
Os estágios profissionais passaram a ser obrigatóriamente remunerados.
Integraram-se os estagiários na Segurança Social.
Reforçaram-se as Bolsas de Estudo no Ensino Superior.
Somos o País da Europa com o maior crescimento do número de investigadores.
Temos 8,6 investigadores por cada mil activos.
Foi lançado um vasto programa de parcerias estratégicas internacionais junto das mais prestigiadas empresas e universidades internacionais, como a Microsoft, a Cisco e o MIT.
Um em cada três jovens está matriculado no Ensino Superior, um aumento de 15% nos últimos 5 anos.
Foi aumentado o número de diplomados em 20% e o número de doutorados em 50%.

Pela primeira vez, o saldo da nossa balança tecnológica é positiva.
Todas as escolas públicas têm acesso à banda larga e temos 100% dos serviços públicos ligados à Internet quando em 2004 apenas tínhamos 40%.
foram criadas 107 mil empresas na hora.
Portugal apresenta-se em 1º lugar no ranking Europeu da disponibilização e sofisticação dos serviços públicos online.
Foram constituidas mais de 18 mil empresas online.
O programa SIMPLEX atingiu uma taxa de execução de 83% com o cartão do cidadão, empresa na hora, casa pronta, documento único automóvel.

Somos líder mundial nas energias renováveis.
Estão-se a construir 9 novas barragens e reforçou-se a potência em 6 barragens.

Somos pioneiros na mobilidade eléctrica através do projecto "Mobi.e".
Somos o primeiro país a ter uma rede nacional com 1.350 postos de carregamentos do carro eléctrico instalados em 25 municípios.

As nossas exportações cresceram 15,7% em 2010, mais do que a média da União Europeia.
Foram criadas as lojas da exportação.
Apoiaram-se mais de 70 mil empresas nos últimos anos.

Despenalizou-se a interrupção voluntária da gravidez.
Promoveu-se a igual valorização da maternidade e da paternidade na família e no mercado de trabalho.
Reforçou-se a participação das mulheres em todas as esferas de decisão.
Aprovou-se o plano nacional contra a violência doméstica.
Aprovou-se o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo.
Portugal está em 2º lugar na integração de imigrantes.

Este é o resultado do trabalho de todos os portugueses.
Um rumo que temos de defender.
Por isso, estamos unidos:
Na defesa do estado social.
Na defesa da modernização económica.
Na defesa de um projecto para mobilizar Portugal
.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Vamos lá, caros amigos, falar verdade.


Hoje, começa a fazer parte do nosso quotidiano, constantes e acalorados apelos à verdade.
Temos que falar verdade, diz o Presidente, dizem os políticos.
Os portugueses têm direito à verdade.
Aaaahhh como eu concordo com esta súbita veneração pela verdade...
E eu, aproveitando a moda, também recomendo:
Vamos TODOS falar verdade.

Não vamos omitir nem mistificar.
Isso não é falar verdade.
Não vamos insinuar nem deixar no ar dúvidas nas entrelinhas, cuidadosamente arquitetadas, para permitirem interpretações matreiras.
Isso não é falar verdade
.

Vem isto a propósito do PEC e da ajuda externa.
Vamos lá, então, caros amigos, falar verdade
.

Estamos, desde meados de 2008, em presença da maior crise global de que há memória viva.
É verdade, não é ?

Esta crise que começou por ser financeira, passando a ser enonómica e social e que se foi agravando com a crise dos déficits e agora a das dividas soberanas, teve profunda influência na vida de todos os paises do Mundo, nomeadamente da Europa e, muito particularmente, como não podia deixar de ser, de Portugal.
Isto é verdade, não é ?

Então avancemos.

Construiu-se uma União Europeia com, actualmente, 27 paises.
Sabiamos, e sabemos, que existem profundas diferenças estruturais, económicas e sociais entre eles.
Há o grupo dos ricos, dos médios e dos pobres a que, eufemisticamente, se começou a designar por periféricos, no qual nos incluem.
A ideia da construção Europeia foi, precisamente, no sentido de amenizar essas diferenças através de politicas solidárias de consolidação.
A frase "quando a água bate quem se lixa é o mexilhão" pode aplicar-se ao que se tem estado a passar nesta crise.
As dificuldades tocam a todos os paises.
Mas quem mais se lixa é o mexilhão, isto é, os mais pobres e mais frágeis, como nós
.
É natural.
Fomos, somos, e continuamos a ser, um país com muitas deficiências estruturais.
Conscientes disso, e quando alguma coisa se estava a modificar, fomos abalroadas por esta crise global.
Tornou-se obrigatória uma politica comum Europeia, solidária, de combate à crise.
Todos os paises foram aconselhados, estratégicamente, a gastar no apoio à area financeira, às empresas e às famílias.
Daí que, naturalmente, os déficits afundaram e as dividas soberanas aumentaram desmesuradamente.

Isto continua, indubitavelmete a ser verdade, não é ?

Com a progressiva acalmia da crise económica e financeira iniciaram-se os planos de estabilização e crescimento delineados à medida das diferentes realidades de cada país.
E tudo parecia correr bem.

Aaaahhh mas eis senão quando surgem os "mercados", agiotas por excelência, ao serviço de grandes interesses financeiros, que viram na fragilidade de alguns paises o meio ideal de sugarem lucros fabulosos e amortizarem perdas da crise que eles próprios originaram.
E para isto, a União Europeia não estava preparada
.
E cada país por si, de forma isolada, pouco ou nada poderia fazer.
Portugal, só por si, nada podia fazer.
Costuma-se dizer que contra a força não há resistência.
Criaram-se, então, mecanismos de ocasião na tentativa de amenizar os efeitos da agiotagem.
Mas não se foi ao fundo da questão e, principalmente, não se agiu com a celeridade que situação impunha.
E a Grécia caiu, pediu ajuda externa para evitar, dizia-se categoricamente, o chamado efeito de contágio.
Mas qual quê, qual carapuça.
Então os "mercados" iam lá contentar-se só com a Grécia ?
Passados 6 meses, cai a Irlanda.
Mas, aaahhh agora sim, para evitar o efeito de contágio e, acrescentou-se, o efeito dominó.
Confesso que gosto mais de jogar à "sueca", muito mais que "dominó".

Continuo sem faltar à verdade, concordam ?

A pressão desloca-se mais para sul, para Portugal.
Houve até quem se começasse a preocupar que, inevitavelmente, o objectivo seguinte seria Espanha, grande demais para salvar.
E caindo a Espanha abrir-se-ia o caminho à queda do Euro.
Dava que pensar.
E pensou-se.
Enquanto a União Europeia se preparava com novos instrumentos para acudir ao agudizar da situação provocada pelos "mercados" e Agências de Ratting, seus "partners", arquitectou-se um conjunto de medidas para Portugal, cuidadosamente elaboradas pelo Governo Português, União Europeia, BCE e Comissão Europeia.
Nasceu assim o celebérrimo PEC
.
Estava garantida a acalmia dos mercados, os juros serenavam, enquanto os novos instrumentos de apoio europeu veriam a luz do dia.
Desta forma, em estreita conjunção estratégica com as entidades europeias, os perigos de contágio, os efeitos dominó, por aqui ficariam.
Era esta a luta que, um país como Portugal, poderia encetar, e encetou, para se evitarem males maiores como o pedido de ajuda externa.
Portanto até esta altura não se poderia sequer pensar em ajuda externa.
Portanto, cai por terra a argumentação falaciosa de deveríamos ter pedido ajuda mais cedo.
A estratégia, reconhecida pela UE e BCE, não era essa
.
A estratégia do PEC estava em curso.
Mas falhou.
Fizeram com que falhasse
.
As oposições chumbaram o PEC numa sessão surrealista de oportunismo politico/partidário.
Depois foi o que todos assistimos.
Os rattings a descer, os juros a subir e a inevitabilidade da ajuda externa.

Tudo isto é verdade.
Tudo isto é dramaticamente verdade.
Tudo isto era completamente evitável
.

Agora,como alguém muito bem disse, vamos ter saudades do PEC.
Rápidos a destruir, sedentos de poder, deixaram o País a braços com uma situação delicada que alguém tinha que resolver.
Mas não eles.
Porque nem estavam preparados.
O Governo, obviamente, sempre os mesmos, os únicos, avançaram.
E quando já todos esperavam um acordo que abrisse as portas à perda dos 13º e 14º mês, a mais despedimentos e cortes salariais.
Quando todos esperavam um acordo que abrisse as portas à aniquilação progressiva da escola pública, do serviço nacional de sáude e à privatização da segurança social.
O acordo negociado pelo Governo, chefiado pelo ministro das finanças, que alguns já colocavam fora, expulso e feito mártir, de forma discreta e eficaz, reflete o empenhamento e a determinação de quem faz da gestão da coisa pública um dever patriótico.
Ficou o PEC, o tal que foi irresponsavelmente chumbado.
E juntaram-se mais umas tantas medidas de carácter estrutural que, de resto, algumas já estavam em gestação, e outras que, por limitações de um governo de minoria nunca seriam possiveis de pôr em prática.
Nem tudo foi tão mau.
Podia e devia ter sido melhor.
Assim o tivessem permitido
.

Agora mãos à obra.
Vai ser duro.
Mas vamos conseguir Defender Portugal e construir o futuro.
O momento não é para experiências perigosas.
Não é para aventuras neoliberais
.
Com muita determinação, energia e capacidade realizadora, vamos vencer.
Eu, por mim, sei de que lado estou.
É o País e o seu futuro que espera por nós.
Comigo pode contar.

Por ser verdade, aqui deixo este meu testemunho.
Falem verdade.
O País agradece e exige
.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Tenho tantas saudades tuas, Mafalda


Mafalda,

Faz hoje 39 anos que nasceste.
Lembro-me bem da soberba alegria que senti ao ser pai.
Fizeste-me pai pela primeira vez.
Habituado, desde sempre, a chamar pai, tinha, desde esse momento, alguém que me iria chamar pai a mim.
Nos dias seguintes não me cansei de dizer a toda a gente que já era pai, que tinha uma filha linda.
Todos tinham que saber que eu era PAI.
E um PAI todo baboso com apenas 19 anos.

Os anos que se seguiram foram difíceis.
Para ti e para todos nós que sempre te amámos.
Mas, com muita luta, determinação e muito amor, conseguimos ultrapassar quase todos os problemas e tornaste-te numa menina cada vez mais forte.
Ainda hoje todos te recordam com uma ternura que me comove.

A vida é muito cruel.
Mas temos que aceitá-la como ela é.
E muito cedo, demasiado cedo, deixaste-nos.
Com apenas 23 aninhos, deixaste-nos.
Mas estarás sempre entre nós, no nosso coração.

Guardo, religiosamente, exposto no meu escritório, o último postal do Dia do Pai que me deste.
Foi no dia 19 de Março de 1995.
Dois meses antes de nos deixares.

Nessa altura, por razões que a própria razão desconhece, andava eu meio confuso e sem rumo.
E tu sabias e reparaste nisso.
Nessa altura não era o pai que tu conheceras.
Escolheste um postal que retratava um pai sentado no chão, longe da vida, longe de tudo, a tocar saxofone, com ar desleixado, e com o filho dormindo junto a si.
Nas costas do postal, escreveste uma mensagem que, desde esse dia, me tem inspirado:

"19/3/95 Hoje é Dia do Pai.
Quero-te dizer que te amo muito que te adoro e que desejo que dias melhores venham para a tua vida, desta tua filha que muito te adora.
Mafalda
".


Cada vez que leio esta tua mensagem, choro... Estou a chorar.

E agora, filha, quero dizer-te que os teus desejos foram realizados.
Meio perdido.
Alcoolizado.
Sem força para lutar.
Sem emprego.
Sem projectos.
Sem perspectivas.
Sem ânimo.
Era o fim.

NÃO !!!
Recusei-me a aceitar.

Acordei.
E consegui.

Voltei a ser eu, o pai que tu conheceste e adoraste.
Inspirado na tua mensagem consegui que melhores dias viessem para a minha vida.
Tudo me corre bem.
Saúde quanto baste.
Dinheiro para as necessidades e alguns desvarios.
Amor e amizade quanto se possa desejar.
Agora até o Benfica, de vez em quando, joga bem e ganha.
Ganhei o passado.
Estou, claramente, a ganhar o presente.
Tenho esperança de ganhar o futuro.
E vou ganhá-lo...
Obrigado, filha.

A mana Paula, o teu cunhado Fernando e o teu sobrinho Diogo estão bem.
São felizes.
Pelo que sei, a tua mãe também.

Agora tens outra mana, a Eunice.
Aaaahhh como eu gostava que a tivesses conhecido.
Tem doze anos e é, pelo menos para mim, a melhor saxofonista do Concelho de Loures.
Confesso que, muitas vezes, vou dar comigo a olhar para ela como se de ti se tratasse.
É uma ternura de menina.
Como tu eras.

Tens, também, mais duas manas, não de sangue mas de coração, a Rita e a Soraia.
A Paula, a mãe delas, casou comigo.
Devo a ela muito do que tenho conseguido.
Tem sido uma companheira exemplar.

Um dia irei ter contigo.
Contar-te-ei, então, tudo.
Ficarás feliz.
Por enquanto, por cá vou ficando porque ainda tenho muito para fazer.

Sempre contigo no pensamento.
Sempre contigo no coração.

Tu sabias que eu ia conseguir.
Sempre confiaste em mim.
E eu quero continuar a cumprir os desejos que cá me deixaste naquele Dia do Pai
.

Que Deus te dê a dobro do que deixaste de ter cá na Terra.
Confio que estarás bem entregue.
Tu mereces.

Tenho muitas saudades tuas, Mafalda.

sábado, 30 de abril de 2011

Um simples gesto para ajudar o País



JFK, presidente americano, celebrizou a frase:
"Não perguntem o que o País pode fazer por nós, mas, sim, o que cada um de nós pode fazer pelo País".

No futebol, todos sabemos, que para uma equipa ganhar tem de marcar mais golos e sofrer menos que o adversário.
Na economia de um País também é assim.

Quando a economia não consegue exportar mais do que importa, perde.
Em Portugal, as exportações têm, surpreendentemente, aumentado de forma exponencial.
Mas continuamos a importar demasiado.
Continuamos a importar mais do que exportamos.
Continuamos a perder
.
As politicas de apoio à exportação e à internacionalização das nossas empresas está notoriamente a dar resultados positivos.
Mas isso é um esforço que está a ser conduzido, com sucesso, pelo Governo e pelas empresas.
E nós ?
O que poderemos fazer para ajudar o País ?
Já pensámos nisso ?
Já pensámos que, também a nós, poderá caber um papel deveras importante ?
Direi mesmo, determinante ?


Por ser mais fácil e cómodo, passamos o tempo a procurar culpados.
Nunca nos passa pela cabeça que muita da culpa está, precisamente, em cada um de nós.
Nunca assumimos que muito do que é imperioso fazer é da nossa responsabilidade.
Somos nós que comprando, levianamente, produtos estrangeiros estamos a alimentar as importações.
Somos nós que, repetidamente, marcamos golos na nossa própria baliza.
E assim não pode ser.
Assim perdemos o jogo.
Temos que mudar de paradigma.

Estamos a marcar golos ao adversário.
As exportações são um surpreendente sucesso.
Todos o admitem.

Resta-nos não sofrer tantos golos.
E como ?
Digamos NÃO aos produtos estrangeiros.
Vamos, preferencialmente, consumir produtos fabricados em Portugal.
Prudutos com códigos de barras começados por 506.
Assim, reduzimos as importações.
Assim, aumentamos a produção nacional.
Assim, combatemos o desemprego.
Assim, aliviamos o déficit comercial com o estrangeiro.
Assim, ganhamos o jogo
.

Experimentemos começar pelas compras no supermercado (carnes, peixe, legumes, bebidas, conservas, preferencialmente, nacionais).
Experimentemos trocar, temporariamente, a McDonalds, ou outra qualquer cadeia de fast food, pela tradicional tasca portuguesa.
Experimentemos trocar a Coca Cola à refeição, por uma água, um refrigerante, ou uma cerveja sem álcool, fabricada em Portugal.

Adiemos, por 6 meses a 1 ano, todas as compras de produtos estrangeiros que tenhamos planeado fazer, tais como automóveis, electrodomésticos, produtos de luxo, telemóveis, roupa e calçado de marcas importadas, etc.

Se podermos fazer férias, façamo-las cá dentro.
Portugal é um dos destinos turisticos de excelência preferido pelos estrangeiros.
Porque não haveremos, também nós, de lhe darmos preferência.

Este comportamento deve ser assumido como um acto de cidadania, como um acto de mobilização colectiva.

Os nossos vizinhos Espanhóis há muitos anos que fazem isso.
Quem já viajou com Espanhóis sabe que eles, começam logo por reservar e comprar as passagens, ou pacotes, em agencias Espanholas.
Depois, se viajam de avião, fazem-no na Ibéria, pernoitam em hotéis de cadeias exclusivamente Espanholas (Meliá, Riu, Sana ou outras), desde que uma delas exista.
Se encontrarem uma marca espanhola dum produto que precisem, é essa mesma que compram, sem sequer comparar o preço (por exemplo em Portugal só abastecem combustíveis Repsol, ou Cepsa).
Mas, até mesmo as empresas se comportam de forma semelhante!
As multinacionais Espanholas a operar em Portugal, com poucas excepções, obrigam os seus funcionários que se deslocam ao estrangeiro a seguir estas preferências e contratam preferencialmente outras empresas espanholas, quer sejam de segurança, transportes, montagens industrias e duma forma geral de tudo o que precisem, que possam cá chegar com produto, ou serviço, a preço competitivo, vindo do outro lado da fronteira.
São super proteccionistas da sua economia!
Dão sempre a preferência a uma empresa ou produto Espanhol!

Está na altura de mudar de paradigma.
Está na altura do que é nacional é bom.
É altura de assumirmos as nossas responsabilidades individuais.
É altura de deixarmos de esperar pelo que o País possa fazer por nós.
Vamos fazer o que podermos pelo nosso País.
Compremos o que é nosso nosso.
Vamos ganhar o jogo
.

sábado, 16 de abril de 2011

A grande Golpada que Lixou o País


Passos Coelho só chumbou o PEC porque receou que o Governo poderia ter condições de evitar o FMI.
Sim, leram bem.
O PEC foi chumbado.
O Governo caiu.
Os juros subiram vertiginosamente.
Os ratings da República, dos Bancos e das Empresas desceram a pique.
Tornou-se, ruinosamente para o País, necessaria a intervenção do FMI.
E tudo porque o PSD/Passos Coelho recearam que a estratégia concertada entre o Governo e a Comissão Europeia tivesse o sucesso que era esperado e possível.


PSD/Passos Coelho protagonizaram a grande Golpada que Lixou o País.

O presidente da CE comunicou privadamente ao líder do PSD que discordava por completo da estratégia do PSD depois de Passos Coelho ter anunciado que era intenção dos sociais-democratas chumbar as medidas do PEC, apresentado pelo Governo em Bruxelas em Março.
Nos argumentos de Durão Barroso, o PSD poderia abster-se no parlamento na votação do PEC, não se comprometendo com qualquer medida que vinculasse o partido para 2012 e 2013.
Viabilizando o PEC e pré-anunciando um chumbo ao Orçamento de 2012, Passos Coelho conseguiria, na opinião de Barroso, evitar um crise política nesta fase, ganhar tempo para que fosse o actual governo a fazer o pedido de ajuda externa e conquistar capital político na opinião pública para precipitar posteriormente eleições.

"Mas Passos Coelho estava a ser pressionado internamente", disse fonte próxima do presidente da Comissão Europeia, "e respondeu que não havia garantias de que o governo fosse mesmo pedir ajuda".

Ou seja, o PSD/Passos Coelho temeram que as coisa corressem bem para o País e o Governo não necessitasse de pedir ajuda externa.
E vai daí, PUMBA.
Chumba o PEC e lixa o País
.

O facto de Passos Coelho ter omitido que se encontrou pessoalmente com Sócrates no dia que antecedeu a divulgação pública do PEC terá irritado o presidente da Comissão Europeia.
Tanto mais que a versão transmitida pelo presidente do PSD a outros sociais-democratas e a Barroso se cingiu ao telefonema.
Numa clara tentativa de fazer passar a idéia que Sócrates o teria desvalorizado.
Mas, como se apanha mais depressa um mentiroso que um coxo, descaiu-se, em entrevista televisiva, revelando, inadvertidamente, que, afinal de contas, tinha tido uma reunião formal em S.Bento.
Ninguém, mesmo no PSD, percebeu porque é que ele [Passos Coelho] não falou sobre o encontro.
Enfim, há razões que a própria razão desconhece...


Irritados e confusos ficaram também os deputados do PSD quando na manhã de 11 de Março, dia em que o ministro das Finanças apresentou as novas medidas de austeridade ao país, a direcção do grupo parlamentar laranja enviou um sms aos deputados a pedir que esperassem pelo fim da reunião dos chefes de governo da zona euro para comentarem o novo programa de austeridade.
Segundo Pacheco Pereira, alguns deputados quiseram saber a que se devia esta ordem, tendo sido informados de que tinha o objectivo de "não prejudicar as negociações do governo em Bruxelas" e de o PS não vir a usar isso como arma.
Para quê ?
Já tinham decidido chumbar o PEC.
Já tinham prejudicado as negociações.
Só que não queriam assumir, na opinião pública, a responsabilidade do feito.
Não conseguiram.
Tudo, agora, ficou claro.

PSD/Passos Coelho protagonizaram a grande Golpada que Lixou o País
.

Já se sabia antes da Cimeira Europeia de 24 e 25 de Março que o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) não ia ser aprovado por causa das eleições da Finlândia.
Foi por isso que Portugal foi convidado por Bruxelas a apresentar o PEC antes da data prevista, este mês de Abril, de forma a poder recorrer ao mecanismo de estabilização europeia, proveniente do orçamento da UE, que tem um montante de 60 mil milhões de euros, antes da reformulação do fundo, que só deverá ser aprovada em Junho.

A negociação com a Europa acabou por ser estilhaçada pelo chumbo do parlamento ao novo pacote de austeridade.
A própria Finlândia, que não queria tornar a ajuda ao nosso país tema da campanha eleitoral, teve de a agendar para votação no parlamento depois do chumbo do novo pacote de austeridade.

E assim, num total desrespeito pelos reais interesses do País.
Num total desrespeito pelos entendimentos conseguidos a nivel europeu.
O PSD lixou a Europa.
O PSD lixou o Euro.
O PSD lixou o País.
E, digo eu, LIXOU-SE.
Os portugueses não os vão perdoar
.

João Barbosa
Um Cidadão preocupado

quarta-feira, 30 de março de 2011

Os mercados cometem crimes contra a humanidade


(excerto de entrevista a Boaventura Sousa Santos no Jornal"i" de 1.Jan.2011)

Pretende-se ajudar a Europa a ver o mundo. Não seria melhor ajudar a Europa a ver-se a si mesma?

A Europa andou vários séculos a tentar ensinar o mundo, com uma visão evangelizadora da religião, depois com o progresso, com a investigação científica e sempre com a ideia de que a Europa não tinha nada a aprender com o mundo, uma vez que a Europa era o centro do melhor saber e do melhor poder.
Tinha toda a clarividência e do outro lado estava a barbárie.
Chegámos a um ponto em que a Europa começou a ter dúvidas sobre as suas soluções.
A crise que vivemos não é apenas uma crise financeira ou económica, como estamos a ver pelo comportamento das lideranças políticas.
Há um desconhecimento histórico do que significa ser europeu, de qual é o valor da Europa.
Ao mais pequeno sobressalto já não há Europa, há aqueles sujos, incompetentes, pouco cumpridores do Sul da Europa - como os gregos, os portugueses, irlandeses - e os outros - os alemães, os que aguentam.
De repente, todo aquele verniz de uma Europa conjunta, solidária, unida, desaparece.

2010 foi o ano do fim das ilusões?

As crises, que já vinham de 2008 e 2009, e que se pensava que poderiam ser superadas em 2010, não o foram.
Pelo contrário, estão em constante agravamento e, provavelmente, vão ser muito mais graves para os portugueses a partir de Março.
Nesse aspecto, as ilusões terminaram.

Era possível prever o que se passou em 2010?

Em 2009, quer ao nível do défice, quer ao nível da dívida pública, Portugal estava numa situação muito melhor que a Itália, muito melhor que a Grécia, muito melhor que a Irlanda e muito melhor que a Espanha.
E não tivemos em Portugal nenhuma daquelas patologias que foram graves, no caso da Grécia iludindo as contas de Bruxelas com a conivência do Goldman Sachs ou, no caso da Irlanda, dominada por meia dúzia de bancos, que - não tendo onde pôr o dinheiro - resolveram criar uma bolha imobiliária.
Nós não tivemos nada disso.
O que é que nós tivemos?
O azar de estar na Europa.
Portugal passou a ser um alvo de ataques especulativos que - no fundo - não se justificavam em termos estritamente económicos.

Mas a economia portuguesa está muito exposta ao exterior exactamente porque precisa de financiamento externo.

Portugal poderia perfeitamente pagar a sua dívida, mantendo o crescimento, que estava paralisado porque somos uma economia fraca com uma moeda forte.
O nosso défice aumentou todo com o euro.
Então porque caímos nessa emboscada?, podemos questionar.
Esta crise existe porque não houve um aprofundamento europeu suficiente.
Pensei que o euro fosse um estádio desse aprofundamento, mas todos os aprofundamentos que se tentou fazer foram bloqueados.
Não conseguimos ter uma política monetária, nem políticas sociais nem fiscais mais ou menos convergentes.
Temos apenas uma moeda comum, que beneficia quem pode produzir com uma moeda forte. O euro foi o grande negócio da Alemanha.

Mas Portugal não deixa de estar mais debilitado que outros países...

Portugal está em crise financeira por contágio.
Porque é um elo fraco, porque é uma economia fraca, com problemas estruturais, mas não é a Portugal que os capitais financeiros querem atingir.
Querem atingir Espanha e Itália.
Só que não podem lá chegar sem ir por Portugal, pela Grécia e pela Irlanda.
Os nossos comentadores dizem mal do Estado, das políticas sociais, mas depois dizem umas frases suaves sobre os mercados financeiros.
Dizem que deviam ser mais regulados e que não deviam ganhar dinheiro com as apostas na bancarrota dos estados e que isso não é uma coisa muito ética.
E ficam-se por aí.
O que se passa é um crime contra a humanidade: apostar em títulos de dívida e fazer tudo para que esses títulos não sejam pagos, porque quanto mais bancarrota tiverem mais juros vão cobrar a curto prazo.
Eles ganham com a falência dos estados.
Jogam com elas porque são mundiais e não há nenhum governo mundial para os regular.

O Prémio Nobel Paul Krugman diz que os mercados são um bando de miúdos de 20 e tal anos, bêbados e encharcados em cocaína...

São um bando de criminosos, que andam por aí muito bem vestidos, mas são uns mafiosos.
Não há dúvida que se trata de um crime contra a humanidade, porque estão a lançar para a fome populações inteiras, para que uns poucos enriqueçam de uma maneira escandalosa.
Estive em Nova Iorque e na 5.a Avenida bateram-se os recordes de venda dos produtos mais caros.
Voltaram a abrir as carteiras, têm dinheiro como nunca em Wall Street, aqueles que produziram a crise.

O professor tinha dito que o neoliberalismo tinha falido, mas afinal...

Aí quase tenho de me retratar.
Nunca imaginei que o neoliberalismo tivesse canibalizado tanto os estados.
O neoliberalismo nacionalizou os estados, os bancos nacionalizaram os estados, não foram os estados que nacionalizaram os bancos.
Passou a ideia de que um banco não pode falir.
As empresas podem falir, um banco não pode falir.
Faliram todos com a Grande Depressão nos EUA, mas nos últimos anos souberam como controlar os estados e começaram por fazer isso nos EUA.
Quem é que nos últimos 20 anos financiou as campanhas nos EUA?
Wall Street.
A campanha do Obama?
Wall Street.
Quem é que Obama nomeia para seu consultor financeiro mais íntimo?
Timothy Geithner.
De onde vem Timothy Geithner?
De Wall Street.
Os abutres dos mercados financeiros estão a destruir a riqueza do mundo para se enriquecerem escandalosamente sem nenhum controlo e há-de haver um momento em que o povo, os governos, vão dizer basta.
E os portugueses, quando começarem a sentir no bolso e na cabeça, e não só no bolso, estas medidas que vão começar a ser aplicadas.

O Presidente da República tem dito que não se deve achincalhar os mercados porque eles podem reagir contra nós...

Penso que o senhor Presidente da República está equivocado.
Não há outra solução para a Europa que não seja a regulação financeira.
Os mercados vão destruir o bem-estar das populações, criar um empobrecimento geral do mundo, para o enriquecimento de poucos.
É necessária uma regulação forte.
Não digo que seja igual àquela que se viveu nos anos 60 - quando uma empresa de Nova Iorque não poderia investir em Nova Jérsia, que fica do outro lado do rio.
Mas hoje os mercados estão globalizados e os estados são nacionais, e ainda por cima não se unem.
Aconselho o professor Cavaco Silva a abrir os jornais: na Grécia os juros estão a 12,5% - obviamente o país nunca vai pagar aquela dívida - apesar do dinheiro que lá se injectou.

O FMI vai entrar em Portugal?

Não tenho nenhuma confiança de que os que estão nesse grande mercado lucrativo dos títulos de dívida soberana não estejam com os olhos em Portugal.
Para chegar a Espanha, obviamente.
Como é que fazem isso?
Com outra coisa escandalosa, que são as agências de notação.
As empresas dizem que o mundo é dominado por dois poderes: o poder militar dos EUA, que já não é económico, e pela Moody''s.
Porque são eles que distribuem a notação e os créditos, controlam a minha conta bancária, a pensão da minha mãe e a comparticipação nos medicamentos.
Esses mercados estão ansiosos por mais uma ameaça de bancarrota e isso sobe imediatamente o preço da dívida.
Acha normal que o preço da dívida de Espanha esteja exactamente no mesmo valor que o da dívida do Paquistão?
São as agências de notação, as mesmas que em 2008 atribuíram as maiores notas aos bancos que faliram.
O Lehman Brothers tinha a maior notação.
O objectivo é atacar o euro.

Mas têm uma agenda própria?

Têm.
São americanas e estão ligadas ao capital financeiro onde estão concentrados os credit default swaps.
São um pequeno grupo.

E em 2011, com cortes salariais e o desemprego a crescer, como é que a sociedade se vai adaptar?

Com estas medidas de curto prazo, se não forem compensadas com medidas de médio prazo que tenham a ver com emprego ou crescimento, Portugal vai ficar numa situação muito difícil mesmo no que respeita ao pagamento da sua dívida.
Mas as medidas de médio prazo não podem vir de Portugal isolado, têm de vir da Europa.

Isso faz-nos voltar à crise do euro.

Desde o início da crise na Grécia que se mostra que o projecto europeu ou já não existia ou faliu.
A Europa não se reconheceu como um todo no momento em que o seu parceiro entra em crise.
Os mercados viram ali uma fraqueza.
E porque era importante essa fraqueza?
Por causa do dólar.
Há lutas políticas nestes mercados e eles não são nada cegos.
O que está em causa é impedir fundamentalmente que o euro seja uma alternativa ao dólar - e isso estava a começar a ocorrer.
Porque é que o Saddam Hussein morreu?
Saddam, que foi agente dos EUA, que fez guerra contra o Irão a mando dos EUA, a quem quiseram passar tecnologia nuclear, começou a cometer um erro: começou a ver a debilidade do dólar e a querer pôr grande parte das suas reservas de petróleo em euros.
A China recentemente fez um aviso aos EUA: a debilidade do dólar podia fazer com que o país começasse a diversificar as suas reservas.
Era muito importante que o dólar mostrasse mundialmente que o euro não é uma maravilha, que é uma moeda frágil e que até pode desaparecer.

Uma mudança de governo poderia fazer diferença?

Nas actuais circunstâncias do panorama político, não faz nenhuma.
E se fizer, neste momento, será para pior.
Olhamos para o programa do PSD e o que está a ser praticado e é o quê?
Mais privatização?
Fim do Serviço Nacional de Saúde?
São mais ou menos as medidas que o Fundo Monetário Internacional vai instituir quando aqui chegar.

E vai chegar?

Incrivelmente, há aí muitos tontos, economistas trauliteiros, que tenho hoje muita dificuldade em respeitar, que até parece que desejam isso.
Mas desejam--no porque têm boas reformas, bons empregos, foram ministros ou estão em grandes empresas, são aqueles que não serão nada atingidos por essas medidas.
Mas a maioria dos portugueses vai ser duramente atingida, porque são medidas cegas, que passam por privatizar tudo.
Vejo comentadores, analistas, sociólogos deste país a dizerem que nós ainda dependemos muito do Estado e que é preciso termos confiança na sociedade.
Mas que sociedade?
Na filantropia, na caridade, no Banco Alimentar?
O que vai ser destes jovens? Trabalho muito com estudantes, quer aqui quer nos EUA, e os meus estudantes nos EUA são cada vez mais velhos.
São doutoramentos atrás de doutoramentos para adiar o desemprego.
Tenho uma grande estima pelos estudantes de hoje.
Às vezes quero levantar muitos problemas, mas os estudantes estão sobretudo preocupados com saber em que é que aquilo vai ajudar às suas empregabilidade.
É muito difícil dizer a um estudante que um poema pode ajudar à sua empregabilidade.

Nota pessoal:
Palavras para quê ?
Está tudo dito.

Presidente ouve passos


Já todos sabíamos que o país se encontrava mergulhado numa profunda crise... Défice PEC's, desemprego, juros, crise política, FMI, ...

Agora isto.... Ouve passos

O homem enlouqueceu!!!

Era só o que nos faltava.....!

CRIME, DIGO EU...


O discurso do Presidente Cavacoide Tiririta foi CRIME, DIGO EU.
O chumbo do PEC na A.R. foi CRIME, DIGO EU.

Com os mercados nervosos em redor das dívidas soberanas, qualquer discurso ou atitude irresponsável produziria mais intranquilidade e motivaria apreciações negativas por parte dos especuladores.
Todos sabiam.
Mas não quiseram saber.
E os resultados estão aí, dolorosamente, à nossa vista.
Em apenas 15 dias os juros da divida subiram de pouco mais de 7% para mais de 9%.
Por isso, caros amigos, o discurso e o chumbo do PEC foi CRIME, DIGO EU.

CRIME, DIGO EU.
CRIME, DIRÃO JÁ MUITOS.
CRIME, DIRÃO MUITOS MAIS quando forem sendo confrontados com as dramáticas consequências deste horripilante crime.

Como nas séries do CSI, para apanhar o criminoso questiona-se a motivação e a oportunidade.
Neste crime de lesa-pátria façamos esse exercício.

O Presidente Cavacoide Tiririta, com o seu discurso incendiário, mais não fez que mostrar à evidência que o movia um espírito vingativo e ressabiado contra uma grande parte dos portugueses, o Governo e, muito em especial, contra José Sócrates.
A sua grande motivação é abater Sócrates, como sempre foi.
AaaaHHH aquelas escutas em Belém em plena campanha eleitoral...
AaaaHHH aquelas incómodas ligações ao BPN e o chorudo lucro de 140% em transações de acções da SLN/BPN fora de bolsa ...
Motivações não lhe faltam.
E, assim sendo, merece o estatuto de suspeito neste crime.

A oportunidade para cometer este crime não poderia ser a melhor.
Em vésperas de manifestação "à rasca", teve o desassombro de apelar e promover a insurreição popular.
Era preciso incentivar o descontentamente, natural, em tempos de crise.
Lamentável.

Estávamos em vésperas da decisiva reunião da União Europeia que se propunha garantir a acalmia dos mercados.
Com a acalmia dos mercados, os juros desceriam e tornar-se-ia menos penosa a acção governativa para lutar contra a crise.
E isso não lhe convinha.
Seria uma vitória de Sócrates.
Mas, esqueceu-se que seria, isso sim, uma vitória do País.
Tornou-se, assim, imperativo impedir que o País se pudesse apresentar na reunião europeia com a legitimidade e a força que as circunstâncias exigiam.
Era a grande oportunidade.
Agora ou nunca.
E o PEC foi chumbado.
E o País não se pôde apresentar como devia.
E, assim, forçou-se a queda do Governo.
Teve a oportunidade e aproveitou-a.
Cavacoide Tiririta é suspeito do crime.

Mais.
Cavacoide Tiririta é o principal criminoso político deste crime.
Porque houve CRIME, DIGO EU.

Quanto ao PSD do impreparado e imberbe Coelhone, motivação nunca lhe faltou.
Maior partido da oposição em jejum governativo e sem perspectivas sólidas de poder.
Partido que nunca aceitou a soberania popular revelada nas ultimas eleições.
Na eminência de grave crise interna.
Obviamente, o PSD é suspeito do crime.

A oportunidade tinha que ser esta.
Em articulação minuciosa com o Cavacoide Tiririta construiram esta crise politica.
Chumbou o PEC.
Abriu a crise politica.
Teve a oportunidade e aproveitou-a.

O PSD é o cúmplice activo do criminoso politico Cavacoide Tiririta.
Porque houve CRIME, DIGO EU.

Será que o crime compensa ?
Tem a palavra o povo.
Justiça seja feita.

Sim, porque houve crime.
CRIME, DIGO EU.
CRIME, DIRÃO JÁ MUITOS.
CRIME, DIRÃO MUITOS MAIS quando forem sendo confrontados com as dramáticas consequências deste horripilante crime.

domingo, 27 de março de 2011

Quando me tornei invisivel

Já não sei em que data estamos.
Lá em casa não há calendários e na minha memória as datas estão todas misturadas.
Recordo-me daquelhas folhinhas grandes, uns primores, ilustradas com imagens dos santos que colocávamos no lado da penteadeira.
Já não há nada disso.
Todas as coisas antigas foram desaparecendo.
E sem que ninguém se desse conta, eu me fui apagando também...

Primeiro trocaram-me de quarto, pois a família cresceu.
Depois passaram-me para outro, menor ainda, com a companhia das minhas bisnetas.
Agora ocupo um desvão, que está no pátio de trás.
Prometeram trocar o vidro quebrado da janela.
Mas, esqueceram-se.
E todas as noites por ali circula um ar gelado que aumenta as minhas dores reumáticas.
Mas tudo bem...

Desde há muito tempo que tinha a intenção de escrever, porém passava semanas a procurar um lápis.
E quando o encontrava, eu mesma voltava a esquecer onde o tinha posto.
Na minha idade as coisas se perdem facilmente, claro, não é uma enfermidade delas, das coisas, porque estou segura de tê-las, porém sempre desaparecem.
Noutra tarde dei-me conta que a minha voz também tinha "desaparecido".
Quando eu falo com os meus netos, ou com os meus filhos,não me respondem.
Todos falam sem me olhar, como se eu não estivesse com eles.
Às vezes intervenho na conversação, segura de que o que lhes vou dizer não ocorrera a nenhum deles, e de que lhes vai ser de grande utilidade.
Porém não me ouvem, não me olham, não me respondem.

Então, cheia de tristeza, retiro-me para o meu quarto e vou beber a minha chávena de café.
E faço assim, de propósito, para que compreendam que estou aborrecida, para que se dêem conta que me entristecem e venham buscar-me e me peçam perdão...
Porém, ninguém vem...

Quando o meu genro ficou doente, pensei ter a oportunidade de ser-lhe útil.
Levei-lhe um chá especial que eu mesma preparei.
Coloquei-o na mesinha e sentei-me a esperar que o tomasse.
Só que ele estava a ver televisão e nem um só movimento me indicou que se dera conta da minha presença.
O chá, pouco a pouco, foi esfriando... e junto com ele, o meu coração.

Então, noutro dia, disse-lhes que quando eu morresse todos se iriam arrepender.
O meu neto mais pequeno então disse:
"Ainda estás viva vóvó ?".
Eles acharam tanta graça, que não pararam de rir.
Durante três dias chorei no meu quarto, até que numa manhã entrou um dos rapazes para retirar umas rodas velhas e nem o bom dia me deu.
Foi então que me convenci de que sou invisivel...
Parei no meio da sala para ver, se me tornando um estorvo, me olhavam.
Porém a minha filha seguiu a varrer sem me tocar, os meninos correram em minha volta, de um lado para o outro, sem tropeçar em mim.

Um dia, em grande agitação, os meninos vieram dizer-me que no dia seguinte iríamos todos passar um dia no campo.
Fiquei muito contente.
Fazia tanto tempo que não saía e mais ainda ia ao campo.
No sábado fui a primeira a levantar-me.
Quis arrumar as coisas com calma.
Nós, os velhos, tardamos muito em fazer qualquer coisa, por isso adiantei-me para não os atrazar.
Rápido, entrávam e saíam da casa correndo e levavam as bolsas e brinquedos para o carro.
Eu já estava pronta e muito alegre.
Permaneci no saguão a esperá-los. Quando me dei conta, eles já tinham partido e o carro desapareceu, envolto em grande algazarra.

Compreendi que eu não estava convidada, talvez, porque não coubesse no carro...
Ou porque os neus passos tão lentos impediriam que todos os demais caminhassem a seu gosto pelo bosque.
Senti dolorosamente como o meu coração se encolheu e a minha face ficou tremendo como a gente tem que engolir a vontade de chorar.

Eu entendo-os.
Eles vivem o mumdo deles.
Riem, gritam, sonham, choram, abraçam-se e beijam-se.
E eu, já nem sinto sequer o gosto de um beijo.


Antes beijava os pequeninos.
Era um prazer enorme tê-los nos meus braços, como se fossem meus.
Sentia a sua pele tenrinha e a sua respiração doce bem perto de mim.
A vida nova produzia-me um alento e até me dave vontade de cantar canções que nunca acreditara me lembrar.
Porém, um dia a minha neta Laura, que acabava de ter um bébé, disse-me que não era bom que os velhos beijassem oa bébés, por questões de saúde...
Desde então já não me aproximo deles.
Não quero passar-lhes algo de mal por minhas imprudências.
Tenho tanto mêdo de contagiá-los.

Eu os bendigo a todos e os perdôo, porque...
"QUE CULPA EU TENHO DE ME TER TORNADO INVISIVEL ?".

Quando já não formos imprescindíveis.
Quando já não formos úteis.
Quando já formos um estorvo.
Ficaremos invisiveis.

A menos que a morte chegue primeiro.
Antes isso...

quarta-feira, 16 de março de 2011

CARTA ABERTA A TODOS NÓS, PAIS e MÃES


CARTA ABERTA A TODOS NÓS, PAIS e MÃES
(texto disponibilizado pela minha filha Paula de 37 anos)


Geração à Rasca - A Nossa Culpa

Um dia, isto tinha de acontecer.
Existe uma geração à rasca?
Existe mais do que uma!
Certamente!

Está à rasca a geração dos pais que educaram os seus meninos numa abastança caprichosa, protegendo-os de dificuldades e escondendo-lhes as agruras da vida.
Está à rasca a geração dos filhos que nunca foram ensinados a lidar com frustrações.

A ironia de tudo isto é que os jovens que agora se dizem (e também estão) à rasca são os que mais tiveram tudo.
Nunca nenhuma geração foi, como esta, tão privilegiada na sua infância e na sua adolescência.
E nunca a sociedade exigiu tão pouco aos seus jovens como lhes tem sido exigido nos últimos anos.

Deslumbradas com a melhoria significativa das condições de vida, as últimas gerações vingaram-se das dificuldades em que foram criadas, no antes ou no pós 1974, e quiseram dar aos seus filhos o melhor.
Ansiosos por sublimar as suas próprias frustrações, os pais investiram nos seus descendentes: Proporcionaram-lhes os estudos que fazem deles a geração mais qualificada de sempre (já lá vamos...).

Deram-lhes uma vida desafogada, mimos e mordomias, entradas nos locais de diversão.

Deram-lhes cartas de condução e 1º automóvel, depósitos de combustível cheios, dinheiro no bolso para que nada lhes faltasse.


Mesmo quando as expectativas de primeiro emprego saíram goradas, a família continuou presente, a garantir aos filhos, cama, mesa e roupa lavada.
Durante anos, acreditaram estes pais e estas mães estar a fazer o melhor.

O dinheiro ia chegando para comprar (quase) tudo, quantas vezes em substituição de princípios e de uma educação para a qual não havia tempo, já que ele era todo para o trabalho, garante do ordenado com que se compra (quase) tudo.

E éramos (quase) todos felizes.

Depois, veio a crise, o aumento do custo de vida, o desemprego, ...

A vaquinha emagreceu, feneceu, secou.

Foi então que os pais ficaram à rasca.

Os pais à rasca não vão a um concerto, mas os seus rebentos enchem Pavilhões Atlânticos e festivais de música e bares e discotecas onde não se entra à borla nem se consome fiado.
Os pais à rasca deixaram de ir ao restaurante, para poderem continuar a pagar restaurante aos filhos, num país onde uma festa de aniversário de adolescente que se preza é no restaurante e vedada a pais.

São pais que contam os cêntimos para pagar à rasca as contas da água e da luz e do resto, e que abdicam dos seus pequenos prazeres para que os filhos não prescindam da internet de banda larga a alta velocidade, nem dos qualquercoisaphones ou pads, sempre de última geração.

São estes pais mesmo à rasca, que já não aguentam, que começam a ser obrigados a dizer "não". É um "não" que nunca ensinaram os filhos a ouvir, e que, por isso, eles não suportam, nem compreendem.

Porque eles têm direitos, porque eles têm necessidades, porque eles têm expectativas,porque lhes disseram que eles são muito bons e eles querem, e querem, querem o que já ninguém lhes pode dar!

A sociedade colhe assim hoje os frutos do que semeou durante pelo menos duas décadas.

Eis agora uma geração de pais impotentes e frustrados.
Eis agora uma geração jovem altamente qualificada, que andou muito por escolas e universidades mas que estudou pouco e que aprendeu e sabe na proporção do que estudou.

Uma geração que colecciona diplomas com que o país lhes alimenta o ego insuflado, mas que são uma ilusão, pois correspondem a pouco conhecimento teórico e a duvidosa capacidade operacional.

Eis uma geração que vai a toda a parte, mas que não sabe estar em sítio nenhum.

Uma geração que tem acesso a informação sem que isso signifique que é informada.

Uma geração dotada de trôpegas competências de leitura e interpretação da realidade em que se insere.

Eis uma geração habituada a comunicar por abreviaturas e frustrada por não poder abreviar do mesmo modo o caminho para o sucesso.

Uma geração que deseja saltar as etapas da ascensão social à mesma velocidade que queimou etapas de crescimento.

Uma geração que distingue mal a diferença entre emprego e trabalho, ambicionando mais aquele do que este, num tempo em que nem um nem outro abundam.
Eis uma geração que, de repente, se apercebeu que não manda no mundo como mandou nos pais e que agora quer ditar regras à sociedade como as foi ditando à escola, alarvemente e sem maneiras.

Eis uma geração tão habituada ao muito e ao supérfluo que o pouco não lhe chega e o acessório se lhe tornou indispensável.
Eis uma geração consumista, insaciável e completamente desorientada.
Eis uma geração preparadinha para ser arrastada, para servir de montada a quem é exímio na arte de cavalgar demagogicamente sobre o desespero alheio.

Há talento e cultura e capacidade e competência e solidariedade e inteligência nesta geração? Claro que há.

Conheço uns bons e valentes punhados de exemplos!

Os jovens que detêm estas capacidades-características não encaixam no retrato colectivo, pouco se identificam com os seus contemporâneos, e nem são esses que se queixam assim (embora estejam à rasca, como todos nós).
Chego a ter a impressão de que, se alguns jovens mais inflamados pudessem, atirariam ao tapete os seus contemporâneos que trabalham bem, os que são empreendedores, os que conseguem bons resultados académicos, porque, que inveja!, que chatice!, são betinhos, cromos que só estorvam os outros (como se viu no último Prós e Contras) e, oh, injustiça!, já estão a ser capazes de abarbatar bons ordenados e a subir na vida.

E nós, os mais velhos, estaremos em vias de ser caçados à entrada dos
nossos locais de trabalho, para deixarmos livres os invejados lugares
a que alguns acham ter direito e que pelos vistos - e a acreditar no
que ultimamente ouvimos de algumas almas - ocupamos injusta, imerecida
e indevidamente?!!!

Novos e velhos, todos estamos à rasca.
Apesar do tom desta minha prosa, o que eu tenho mesmo é pena destes jovens.
Tudo o que atrás escrevi serve apenas para demonstrar a minha firme convicção de que a culpa não é deles.
A culpa de tudo isto é nossa, que não soubemos formar nem educar, nem fazer melhor, mas é uma culpa que morre solteira, porque é de todos, e a sociedade não consegue, não quer, não pode assumi-la.
Curiosamente, não é desta culpa maior que os jovens agora nos acusam.

Haverá mais triste prova do nosso falhanço?
Pode ser que tudo isto não passe de alarmismo, de um exagero meu, de uma generalização injusta.
Pode ser que nada/ninguém seja assim.
Pode ser...

sábado, 12 de março de 2011

Geração à Rasca ou Geração mal habituada ?


A geração dos meus pais não foi uma geração à rasca.
Foi uma geração com capacidade para se desenrascar.
Numa terriola do Minho as condições de vida não eram as melhores.
Mas o meu pai António não ficou de braços cruzados à espera do Estado ou de quem quer que fosse para se desenrascar.
Veio para Lisboa, aos 14 anos, onde um seu irmão, um pouco mais velho, o Artur, já se encontrava.
Mais tarde veio o Joaquim, o irmão mais novo.
Apenas sabendo tratar da terra e do pastoreio, perdidos na grande e desconhecida Lisboa, lançaram-se à vida.
Porque recusaram ser uma geração à rasca fizeram uma coisa muito simples.
Foram trabalhar.

Não havia condições para fazerem o que sabiam e gostavam.
Não ficaram à espera.
Foram taberneiros.
Foram carvoeiros.
Fizeram milhares de bolas de carvão e serviram milhares de copos de vinho ao balcaão.
Foram simples empregados de tasca.
Mas pouparam.
E quando surgiu a oportunidade estabeleceram-se como comerciantes no ramo.
Cada um à sua maneira foram-se desenrascando.
Porque sempre assumiram as suas vidas pelas suas próprias mãos.
Porque sempre acreditaram neles próprios.

E nós, eu e os meus primos, nunca passámos por necessidades básicas.
Nós, eu e os meus primos, sempre tivémos a possibilidade de acesso ao ensino e à formação como ferramentas para o futuro.
Uns aproveitaram melhor, outros nem tanto, mas todos tiveram as condições que necessitaram.
E é este o exemplo de vida que, ainda hoje, com 60 anos, me norteia e me conduz.

Salvaguardadas as diferenças dos tempos mantenho este espírito.
Não preciso das ajudas do Estado.
Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se.
Não preciso das ajudas da família que também têm as suas próprias vidas.
Não preciso das ajudas dos vizinhos e amigos.
Porque o meu pai e tios também não precisaram e desenrascaram-se.

Preciso de mim.
Só de mim.
E, por isso, não sou, nunca fui, de qualquer geração à rasca.
Porque me desenrasco.
Porque sempre me desenrasquei.


O mal desta auto-intitulada geração à rasca é a incapacidade que revelam.
Habituados, mal habituados, a terem tudo de mão beijada.
Habituados, mal habituados, a não precisarem de lutar por nada porque tudo lhes foi sendo oferecido.
Habituados, mal habituados, a pensarem que lhes bastaria um canudo de um qualquer curso dito superior para terem garantida a eterna e fácil prosperidade.
Sentem-se desiludidos.

E a culpa desta desilusão é dos "papás" que os convenceram que a vida é um mar de rosas.
Mas não é
.
É altura de aprenderem a ser humildes.
É altura de fazerem opções.
Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não encontram emprego "digno".
Podem ser "encanudados" de qualquer curso mas não conseguem ganhar o dinheiro que possa sustentar, de imediato, a vida que os acostumaram a pensar ser facilmente conseguida.
Experimentem dar tempo ao tempo, e entretanto, deitem a mão a qualquer coisa.
Mexam-se.
Trabalhem
.
Ganhem dinheiro.

Na loja do Shopping.
Porque não ?
Aaaahhh porque é Doutor...
Doutor em loja de Shopping não dá status social.
Pois não.
Mas dá algum dinheiro.
E logo chegará o tempo em que irão encontrar o tal e ambicionado emprego "digno".
O tal que dá status.

O meu pai e tios fizeram bolas de carvão e venderam copos de vinho.
Eu, que sou Informático, System Engineer, em alturas de aperto, vendi bolos, calças de ganga, trabalhei em cafés, etc.
E garanto-vos que sou hoje muito melhor e mais reconhecido socialmente do que se sempre tivesse tido a papinha toda feita.

Geração à rasca ?
Vão trabalhar que isso passa
.

À rasca, mesmo à rasca, também já tenho estado.
Mas vou à casa de banho e passa-me.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Dieta mental, precisa-se

O prof. Andrew Oitke publicou o seu polémico livro «Mental Obesity», que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.
Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada.
Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono.
As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas.

Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema.
Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.»

O problema central está na família e na escola.

«Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.
Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas.

Com uma «alimentação intelectual» tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma:
«O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas.

A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polémico e chocante.
«Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais.» Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

«O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades.
Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam porquê.
Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto».
As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras.

Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.

Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.
Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o fim da civilização, como tantos apregoam.

É só uma questão de obesidade.
O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos.

O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos.
Precisa sobretudo de dieta mental.

(texto de Paulo Margalho in Facebook)
.

Chega, começo a sentir náuseas

Na mesma semana em que foi assassinado um cronista social, faleceu um capitão de Abril.
Ao primeiro, a comunicação social, dedica horas.
Ao segundo dedicou minutos.
Para o primeiro são ouvidas dezenas de personalidades.
Do segundo nada se diz.
Do primeiro até temos de saber por onde vão ser distribuídas as cinzas.
Do segundo soube-se que o corpo esteve algures em câmara ardente.
Do primeiro traça-se um perfil de grande lutador pelas liberdades.
Do segundo pouco mais se diz que era um oficial na reserva.

A forma como a comunicação social tem tratado o homicídio de um mero cronista social tem sido, no mínimo, abusiva.
São jornalistas, astrólogos, parapsicólogos e uma verdadeira procissão de personagens de um jet set rasca e, no meio, usa-se e abusa-se das imagens onde se vê o cronista a entregar um ramo de flores a Maria Barroso, imagens que já vi serem repetidas quase uma dúzia de vezes.

A forma trágica como terminou aquilo que o cronista descreveu aos amigos que iria ser uma lua de mel é apresentada por astrólogas, parapsicólogos e outros especialistas deste ramo como uma bela história de amor, um misto de um episódio do Morangos com Açúcar com o Romeu e Julieta.
Chegamos ao ridículo de ver as astrólogas e parapsicólogos a tentarem demonstrar a culpa do jovem homicida exibindo e-mails e insinuando que este teria conquistado com palavras o distraído apaixonado, dando a entender que, como noutros tempos, o enganou.

E anda este país, com problemas gravíssimos, distraído com um episódio sórdido da lumpen-burguesia deste nosso jet set miserável, como uma pequena seita de gente que se auto-elege como bonita, vive de pequenos luxos obtidos à custa de papalvos, um meio onde se promovem personagens patéticas e decadentes a grandes figuras nacionais, onde autarcas financiam discotecas de astrólogas ou ajeitam as contas de idiotas convidando-os para reis do Carnaval.

Todo este espectáculo mórbido que só serviu para os portugueses saberem um pouco mais sobre como se fazem e desfazem as paixões conseguidas com trocas de favores começa a provocar-me náusea.
Já me custa assistir a um telejornal ou abrir as páginas dos jornais.
Enoja-me que estes jornalistas me queiram fazer pensar que os grandes problemas do país é como acabam as paixões dos nossos socialites, os sítios que querem poluir com as suas cinzas, ou os sms que trocaram com os seus engates.

Lá que insistam em dizer que crónica social é saber com quem namora uma qualquer Lili decrépita e decadente é uma coisa, agora que a sociedade portuguesa é o pequeno mundo dessa pobre gente é outra coisa.
O país tem muito mais com que se preocupar do que com os engates de modelos, com as trocas de sms, com paixões à primeira vista entre jornalistas de 65 anos e modelos de 20.
Chega, começo a sentir náuseas.

sábado, 6 de novembro de 2010

Ousem Vencer


Somos um povo triste.
Somos um povo de copos meio vazios.
Somos um povo que super-valoriza a desgraça e a má sorte, como forma de valorização pessoal.
Quanto mais desgraçado, mais valor se tem.
Ahhhh!... Ter sempre um dramazinho para contar...
Ahhhh!... Sentir-se importante por ter problemas.
Sentir-se bom por ter sofrido...
É comum ouvir-se : "Coitado, tão bonzinho, tem tanto valor. Tem sofrido tanto..."
É uma expressão que assusta.

Temo-nos baseado grandemente no medo de ser feliz, na culpa de ser feliz e foi-se parar a um quase culto da desgraça e do sofrimento ( padrões altamente valorizados socialmente ).

Mas, eu NÃO !!
Não sou dado a fatalismos.
Recuso-me a aceitar os profectas da desgraça.

Quando algo me corre mal, e já tem corrido, arregaço as mangas, encho-me de coragem, e avanço.
Existe sempre uma solução, mas temos que procurá-la.
Existe sempre uma oportunidade, mas temos de a agarrar.
Temos que acreditar em nós.
Esperar pelos outros, pelo vizinho, pela familia ou pelo Estado, é prova de fraqueza.
É na dificuldade que sobressaiem os capazes.
Só é desgraçado quem se deixa desgraçar.

Agora é a crise.
A crise economica e financeira mundial.

É deprimente a postura mazoquista a que se assiste.
A Comunicação Social focaliza os seus noticiários e reportagens no que de pior esta crise nos trouxe.
A Oposição politica e corporativa aproveita-se das dificuldades conjunturais para "malhar" manhosamente em tudo o que mexe.

É a desfaçatez.
É a mesquinhice.
É o triste fado lusitano.

Em tempo de guerra não se limpam armas.
Em tempos dificeis requere-se acção, não imobilismo.
Em tempos dificeis exige-se coragem, determinação e vontade de vencer.

Na vida a minha atitude é sempre a de:
Apoiar quem faz.
Apoiar quem quer fazer.
Apoiar quem se dispõe, no terreno real, a atacar com determinação os efeitos nefastos da situação.

Sou a favor de quem faz, e faz bem.
Sou visceralmente contra os que "sabem muito", os chamados "sabões".

É estranho, ou talvez não, que de todas as muitas medidas tomadas pelo Governo, nem uma única tenha merecido o apoio sincero das oposições.
Para as oposições tudo o que se faz, está mal.
Tudo o que se faz, se não estiver mal, nunca chega.
Tudo o que se faz, se não estiver mal, vem tarde.

Mas, entre as medidadas do Governo e os devaneios das oposições, vai uma grande diferença.
O Governo responderá pelas suas medidas.
As oposições não terão que responder por nada.
O Governo sabe que o que fizer, de bem ou de mal, será responsabilizado por isso.
Assim, tem de agir ponderada e acertadamente.
Para a oposição, o seu ganho está nos erros que o Governo cometer.

A oposição aposta no fracasso do País.
O Governo aposta no seu sucesso.
E isso faz toda a diferença.

Estamos em crise. Uma crise mundial.
Mas, paremos para pensar.
Pensemos, PORRA...

Há muitos copos meio cheios...
Há muito mais vida, e melhor vida, para além de algumas desgraças, que não quero desvalorizar.

O maior problema desta crise é o aumento do desemprego.
E não me venham, os manhosos arautos da desgraça, dizer-me que esse é um mal nacional.
Eu uso óculos, mas não sou vesgo...
Não.
É um mal global que obviamente nos afecta.

O meu pai, na sua douta sabedoria de experiência feita, costumava dizer-me que os conselhos são fáceis de dar.
Mas, os conselhos valem o que valem.
Se valessem muito, não se davam, vendiam-se.

Potanto não é de conselhos que vou falar.
Vou falar de mim.

Sou Tecnico Informático, Analista de Sistemas.
Comecei há 40 anos quando os computadores eram monstros inacessíveis ao comum dos mortais.
Era um miudo, voluntário na Força Aéria.
Quando a oportunidade surgiu, agarrei-a.
Trabalhei, estudei e consegui.

Toda a minha vida profissional foi feita em grandes empresas e com vencimentos acima da média.
Nunca encarei o emprego como coisa para toda a vida.
Nunca tive medo de mudar.
Se me sentia injustiçado ou mal recompensado, não reinvindicava. Mudava-me.
Sempre acreditei, e acredito, em mim.
Nas minhas capacidades.
Na minha determinação.

Mas a vida tem altos e baixos.
Por culpa do "destino" ?
Por culpa própria ?
Sabe-se lá...

Depois de várias experiências, umas bem e outras mal sucedidas, eis que me vejo no desemprego com 44 anos de idade.

Sem emprego.
Sem projectos.
Sem perspectivas.
Sem ânimo.
Era o fim.

NÃO !!!
Recuso-me a aceitar.

Tinha consciência que com 44 anos era difícil a colocação na minha área profissional.
Mas não era impossível.
Tinha consciência que com 44 anos era difícil iniciar qualquer uma outra nova actividade.
Mas não era impossível.

Respondi a anúncios, fui a entrevistas e os 44 anos a pesarem-me dolorosamente.
Não conseguia.
Mas não desisti.
Continuei à procura.
O tempo passava, e nada.
Tive que deitar mão ao que fosse possível ganhar dinheiro.
Gostasse ou não.
Na tropa ensinaram-me a regra mais sagrada da vida: "desenrasca-te", disseram-me.

Andei de café em café a vender bolos regionais.
À medida que criei uma rede, cada vez maior, de clientes, fui aproveitando esse universo que se foi formando, para vender tudo o que fosse vendável.
Vendi calças de ganga, quadros, estatuetas, telemóveis e eu sei lá...

Vendi milhares e milhares de bolos por todo este País, em feiras e romarias, através de um turco que tinha bancas de venda em feiras mas não tinha crédito nas fábricas.
Criámos uma parceria que muito nos rendeu.

E assim, lá em casa, já não faltava nada.
Até começou a sobrar.

Mas eu era Informático.
Nunca fui vendedor de coisa alguma, muito menos de bolos.

Mas, um dia a persistência resultou.
Depois de tantas e continuadas respostas a anúncios, fui convocado para mais uma entrevista de emprego.
Fui seleccionado.
Fiquei como responsável pela informática de uma grande empresa de transportes.
Mas o mundo das novas tecnologias é muito dinâmico e eu já me tinha atrazado.
Mas não tive medo.
Pesasse embora a minha idade, reciclei-me, aprendi, valorizei-me.
Porque sou capaz.
Porque acredito em mim.
Porque não desisto.

E é este sentimento de esperança e de optimismo que quero transmitir a todos que, neste momento, se confrontam com as dificuldades.

Não esperem por ninguém.
Não queiram ficar reféns do estado social.

Mexam-se.
Ousem vencer.

Hoje, com 58 anos, para além do profissional de informática, agora por conta própria, sou, sobretudo, um profissional de ganhar dinheiro.

Informei-me, documentei-me, analisei o risco e fui investindo moderadamente as minhas economias em aplicações financeiras, no mercado de valores mobiliários.
E também consegui... mesmo com a crise.

Oportunidades há muitas.
Agarrem-nas.
Só é desgraçado quem se deixa desgraçar.

Abençoados os que ousam vencer...